Cabeça de José 

PATRÍCIA GALELLI
56 páginas, 2014
ISBN 978-85-60716-12-8
Apresentação de Luiz Bras.
lustrações e desenho gráfico
de Yannet Briggiler.
Tradução integral ao espanhol
por Eleonora Frenkel.

Patrícia Galelli é pesquisadora, produtora e gestora cultural. Graduada em jornalismo (UnC), é mestranda em Artes Visuais – linha de Processos Artísticos Contemporâneos (UDESC). Publicou o livro de contos “Carne falsa” (Editora da Casa, 2013) e o livro-de-artista “Um bicho que” (Miríade Edições, 2015 e 2016). Publicou o conto "Gávea", na coleção em meio digital Formas Breves (e-galáxia, 2014).   

 

Vive em Florianópolis, Santa Catarina.    

 

Um fragmento de Cabeça de José

AS PESSOAS DE CABEÇA EXATA

 

na cabeça de José correm dois rios sem sentido. nas pessoas de cabeça exata, não. nessas há uma grande quantidade de órgãos de palpite, a boca, os olhos, o cérebro – essas coisas leves.

cabeça exata define pessoas sem pés nem cabeça. não é que sejam mulas-sem-cabeça, isso não. continuam sendo pessoas, mas, como o tamanho não varia, os pensamentos são águas paradas.

aí acontece sofrerem de clichê.

 

: agentes infecciosos conhecidos como carimbos-de-língua tornam as palavras documentos burocráticos;

 

: cada pessoa de cabeça exata possui no córtex cerebral uma mesa com pilhas e pilhas de papel;

 

: uma palavra só pode sair da boca se estiver carimbada;

 

: todas as frases são inspecionadas e têm um número de identificação.

 

quando falam, pessoas de cabeça exata colecionam comprovantes de registro de ponto

das frases que disseram.

Na tradução de Eleonora Frenkel

LAS PERSONAS DE CABEZA EXACTA

 

en la cabeza de José corren ríos sin sentido. en las personas de cabeza exacta, no. en esas hay una gran cantidad de órganos de pálpito, la boca, los ojos, el cerebro – esas cosas ligeras.

cabeza exacta define personas sin pies ni cabeza. no es que sean mulas sin cabeza, eso no. siguen siendo personas, pero, como el tamaño no varía, los pensamientos son aguas paradas.

entonces ocurre que sufren de cliché.

 

: agentes infecciosos conocidos como sellos de lengua transforman las palabras en documentos burocráticos;

 

: cada persona de cabeza exacta tiene en la corteza cerebral una mesa con pilas y pilas de papel;

 

: una palabra solo puede salir de la boca si está sellada;

 

: todas las frases son inspeccionadas y tienen un número de identificación.

 

cuando hablan, las personas de cabeza exacta coleccionan comprobantes de registro de salida

de las frases pronunciadas.

Comentário da ilustradora

     “A forma dos desenhos, feitos com manchas de tinta e de pó de café e a imensidão do preto, ultrapassa a ideia de representação para existir apenas como traço e mancha, procurando o afastamento e, ao mesmo tempo, uma repercussão do nosso próprio corpo”, diz Yannet Briggiler. 

Uma resenha de "Cabeça de José":

"PRIMEIROS LANÇAMENTOS"

 

Graça Ramos [blog do jornal "O Globo", Rio de Janeiro, 10/02/2015.]  

     O ano começou agora, às vésperas do Carnaval, para o mercado editorial infantojuvenil. O blog recebeu alguns lançamentos de 2015 e ainda vários livros editados no final de 2014. A leitura da maior parte deles não causou grande impacto e espero que isso não seja um indicativo para o ano. Entre nacionais e estrangeiros, eles confirmam que a literatura nesse segmento ainda vive muito do reconto, das adaptações e da ficcionalização de feitos históricos.  

        A princípio nada contra os três modos de configurar o narrar, todos são válidos e muito livro de boa qualidade já surgiu a partir da releitura de narrativas fictícias ou reais. A questão diz respeito ao fato de que a literatura se torna mais poderosa quando surgem narrativas com algum grau de novidade, aquelas que constroem inventos e, de alguma maneira, surpreendem o leitor. Na trama, na forma ou na maneira como o texto visual se articula com o verbal, a literatura para crianças e adolescentes exige descobertas e investigações talvez em maior intensidade da direcionada para adultos.  

       Como gosto de novidades, falarei primeiro de "Cabeça de José" (Nave), de Patrícia Galelli. Único dos livros avaliados em que identifiquei uma voz personalíssima, ele pode ser adotado para o universo juvenil, embora em sua ficha catalográfica esteja cadastrado apenas na categoria “Conto”. Ilustrado por Yannet Briggiler, o livro fala de uma cidade chamada Paradoxo, onde vive José, personagem que leva o leitor a viagens por sendas incomuns.

     Se “na cabeça de José correm dois rios sem sentido”, de muitos sentidos se faz a prosa poética de Galelli. E também de não-sentidos nessa escrita que brinca com absurdos da linguagem, dos corpos e também das cidades. O inusitado José confunde helicóptero com satélite e é capaz de construir uma mini-hidrelétrica para dar luz aos pensamentos. As ações e o discurso dele o aproximam de reflexões existenciais de muitos “Josés” em plena adolescência, como na frase: “o tédio é uma morte que não desce do céu./: o tédio é a morte pendurada”.

     As ilustrações em azul e branco sobre fundo preto, em papel com brilho, acompanham o delírio do texto verbal. Com diagramação também fora dos padrões – muitos parágrafos começam com dois pontos e em todo o texto somente nomes próprios aparecem em maiúsculas –, o livro confronta o leitor com seus paradoxos, lança-o ao desafio de alimentar alucinações. Apresenta, assim, a adultos ou adolescentes, as muitas cabeças de que somos feitos. Como não está claro para que leitor ideal se destina o livro, considero que o prefácio, escrito por Luiz Bras, nova assinatura do escritor Nelson de Oliveira, está endereçado a adultos, sendo pouco pertinente para o público juvenil.  

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